
O cinzeiro estava cheio de guimbas , de cinzas , de lágrimas . Seu coração era um cinzeiro . Latas de cerveja vazias , alguns cubos de gelo derretendo em cima da pia . A cozinha estava suja . Evitou-o fumando um cigarro na sala . Abriu a janela , viu a lua , parcialmente escondida , parcialmente exposta . Livros amontoados na sala , cd’s velhos , um sofá com um rasgo em um dos assentos e uma garrafa de vodka metade vazia e metade cheia (de hábitos) . Decidira enfrentar seus fantasmas com as gengivas sangrando , sempre era necessário . Não tinha medo da dor . [...] Olhava para a mesa de vidro e seu reflexo . Sentiu vontade de chorar . Escorregou do sofá e sentou no chão , cruzou as pernas , apagou o cigarro e enquanto tamborilava os dedos na mesa pensou em não-agir . Em não pensar . Era preciso se encontrar . Era preciso parar e não pensar . Impossível . As coisas ferviam lá fora . A maldade tinha lhe encontrado em duas ou três ocasiões , mas conseguira esquivar-se . Estava viva e expectativas demasiadas só traziam problemas demasiados . Contentaria-se com o pouco . Este era seu plano . Habituar-se com o necessário . Sem excessos , sobreviveria . Café , alguma erva , cerveja e livros . Nada mais . Era uma boa filósofa de bar , não almejava além . Janelas de ônibus serviam-lhe de farto material filosófico ; sentia-se feliz . [...] E quando olhou para aquele quadro velho , no intervalo dos comerciais da agradável insônia da madrugada , teve vontade de pintar , de fazer poesia , de cantar , mas nada aquilo aquietaria seu espírito . Bastava se retornar , perder-se dentro de seu caos e fulgurar diante do nada com os desejos explodindo sua epiderme . Havia caos , havia luz , havia um pedaço de vida diante da morte programada e ela não se eximiria mais do seu destino . As cinzas cimentavam o novo caminho . -“É um “pessimismo-realista” que me motiva a viver .”- disse a si mesma . Como assim ?! Há contradição nesta frase . Há sim . Há muita contradição na vida . E no momento . Neste parágrafo , deste momento , ela pensava em continuar . Por que continuar , continuar era a única coisa que aprendeu a fazer em todos estes anos .
Continuar era uma profissão de fé .
Continuar era uma profissão de fé .
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